26 Agosto 2009

O parto como rito de passagem

["Birth Messages"; o caso da episiotomia]

"Faz uma análise simbólica dos procedimentos de rotina do parto hospitalar, por ela denominado de modelo tecnocrático do parto. Seu objetivo é elucidar os motivos pelos quais as instituições, a despeito das contra-indicações assinaladas pelas evidências científicas, continuam promovendo o uso rotineiro de vários desses procedimentos, entre os quais a episiotomia. Eles desempenham importantes funções rituais e simbólicas, atendendo, com sucesso, a diversas demandas importantes dos profissionais de saúde responsáveis pela assistência ao parto, das mulheres em trabalho de parto e da sociedade e cultura mais abrangentes.

A episiotomia é analisada como uma mutilação ritual. A vagina, em diversas culturas, inclusive a nossa, é símbolo por excelência daquilo que é natural, sexualmente poderoso e criativo na mulher, sendo, por isso mesmo, vista como ameaçadora pelos homens. É relembrada a figura
mitológica da vagina dentada, que ameaça consumir ou castrar o macho impotente. No ocidente, a crença na superioridade da cultura sobre a natureza se expressa através da metáfora, popularizada por Descartes, do corpo-máquina humano, cujo controle e aperfeiçoamento cabe à
ciência. O corpo da mulher é retratado pela medicina como uma máquina inerentemente defeituosa. Os argumentos em prol da episiotomia de rotina reiteram esta simbologia ao afirmar que sua adoção protege a parturiente e seu concepto dos perigos apresentados pelo defeituoso
corpo feminino. Para a autora, esse é um dos procedimentos através dos quais se 'manifesta a tentativa cultural de utilizar o nascimento para demonstrar a superioridade e controle do Masculino sobre o Feminino, da Tecnologia sobre a Natureza'. Através dessa operaçào, a vagina é
desconstruída pelo médico, oficiante do rito e representante da sociedade, para ser então reconstruída culturalmente.

Ademais, a episiotomia é útil conceitualmente para a obstetrícia. Ao transformar o nascimento em um procedimento cirúrgico de rotina, legitima-se a obstetrícia enquanto ato médico, pois se incorpora à sua prática um elemento central da medicina ocidental e uma das formas
mais elaboradas de manipulação do corpo-máquina humano - a cirurgia. O ápice desse processo se dá com a adoção da cesariana como procedimento de rotina, sendo o Brasil citado como ilustração."



Robbie E. Davis-Floyd, Birth as an American Rite of Passage. Berkeleyand Los Angeles, University of California Press, 1992. (Resenha assinada por Sonia N. Hotimsky, no Notas sobre Nascimento e Parto, AnoIII, nº6, novembro de 1998, publicação do Grupo de Estudos sobreNascimento e Parto / Instituto de Saúde-SES-SP).

Das posições para o parto / técnicas do corpo

"Durante meu trabalho de investigação numa grande maternidade jamaicana, havia uma luta constante entre as parturientes e as parteiras, querendo as primeiras levantar-se para se agacharem ou balançarem o pélvis para trás e para a frente, com os joelhos fletidos, e tentando as segundas metê-las na cama, onde deveriam deitar-se sossegadas, como boas doentes.

Uma freira da classe média, que estava de serviço na sala de parto, embaraçada por eu, uma pessoa de fora, estar a assistir a isto, disse: 'Não sei como aguenta ver isto. Elas são como animais!' O pessoal estava perfeitamente consciente de que os movimentos executados pelas parturientes não eram adequados a um código de comportamento da classe média branca e sentiam-se envergonhadas.

As índias Sia sentam-se num banquinho baixo, enroladas num cobertor, de costas para o fogo, levantando-se e caminhando quando têm vontade. No momento da expulsão, ajoelham-se numa cama de areia, com as mãos agarradas ao pescoço do pai e as costas apoiadas ao corpo da parteira, que está sentada com os braços passados em torno delas, dando-lhes massagens no ventre. Entre os nômades siberianos, a parturiente apoia-se a duas traves paralelas, a cerca de um metro uma da outra, ligadas por uma barra transversal; durante as contrações fica suspensa
por baixo dos braços, de modo que toda a parte de baixo do corpo fica descontraída, apoiada à barra. Na Ilha de Páscoa, que constitui uma exceção dado os parteiros serem do sexo masculino, a mulher decide se prefere ficar de pé com as pernas afastadas ou sentada; o parteiro fica de pé atrás dela, apoiando-a com o seu corpo e dá-lhe massagens lentas e ritmadas no ventre.

A posição que a mulher adota durante as últimas fases do trabalho de parto pode variar, desde sentada nas cadeiras e banquinhos usados na Europa medieval (que só se modificou no reinado de Luís XIV, quando os obstetras convenceram as amantes do rei a dar à luz deitadas em mesas de modo a que aquele, escondido atrás de uma cortina, pudesse ver tudo)[apud Pete M. Dunn, "Obstetric Delivery Today", Lancet, April 10, 1976.], até balançar pendurada nas traves da cabana. A posição mais freqüentemente adotada, e que é também a mais vantajosa do ponto de vista fisiológico, é com as costas curvadas, os joelhos fletidos e os músculos que percorrem a parte interior das coxas descontraídas..."

Sheila Kitzinger, Mães - um estudo antropológico da maternidade.
Lisboa, Presença, 1978; pp.93-94

12 Agosto 2009

A relação mais intima

Os Conflitos Entre Mãe e Feto
Michel Odent, M.D.

As relações entre mãe e feto representam as mais íntimas das relações humanas.

Elas não se fazem somente por intermédio das funções sensoriais. Elas se fazem, acima de tudo, pela troca eminentemente vital que nós podemos qualificar de nutricional. Direta ou indiretamente, as necessidades nutricionais do feto têm por origern o sangue da mãe e dejetos de origem fetal que retornam em direção ao organismo materno. Sublinhemos imediatamente que todas as condições estão, a priori, reunidas de forma para que situações de conflito apareçam. Realmente o feto não tem somente genes de origem materna. Ele tem também genes de origem paterna. Em outras palavras, tudo acontece como se o bebê e a mãe, em certas circunstâncias, pudessem ter divergências de interesses, mesmo que eles tenham também numerosos interesses em comum.
A metafora de "portadores de ações em bolsa", proposta por David Haig', e útil para compreender a natureza dos possíveis conflitos: dois portadores de ações podem ter numerosos interesses em comum, como também interesses divergentes. É como se, no decorrer da evolução, os genes fetais tivessem sido selecionados para aumentar a transferência de substâncias nutritivas, enquanto que os genes maternos foram selecionados para estabelecer limites a essas transferências.O Advogado do BebêDentro da medida em que a harmonia de interesses entre mãe e o bebê não está completa, concebemos que o bebê precisa de uma espécie de advogado para exprimir suas necessidades. Esse advogado é a placenta. Um dos papéis da placenta é manipular constantemente a fisiologia materna para o benéficio do feto.
A placenta "fala" ao organismo da mãe por meio de hormônios (como "'HCG", Hormônio Lactogenico Placentário, etc).
Um exemplo suficiênte para demonstrar que essa função da placenta é normalmente mal conhecida:Durante toda a gravidez, a placenta “pede” à mãe para diluir seu sangue e assim torná-lo mais fluído. Isso acarreta um aumento do volume sanguíneo que pode alcançar cerca de 40%. Isso explica que, assim que medimos, no sangue de uma mulher grávida, a concentração de uma substância tal como a hemoglobina (o pigmento dos glóbulos vermelhos), nós estimamos, antes de tudo, o processo de diluição, quer dizer, a atividade da placenta. É consideravalmente previsível que essa concentração, que atinge a ordem de 12 a 13 (g/d) fora da gravidez, baixará na mulher grávida em função do grau da diluiçção do sangue. Uma enorme pesquisa britânica dispõe de arquivos relativos ao nascimento de mais de 150.000 bebês, com objetivo de estimar as taxas ideais de hemoglobina durante a gravidez (2).
A principal conclusão é que uma taxa na ordem de 9.5 vai de encontro a um bom prognóstico. Quando o organismo materno responde mal à necessidade do feto e da placenta e não chega a baixar a taxa de hemoglobina a um nível inferior a 10.5, é um sinal de situação conflituosa. Riscos de prematuridade, de baixo peso no nascimento e de confições patológicas tais como a rpé-eclâmpsia, são aumentados. Outros estudos epidemio-lógicos chegaram a conclusões semelhantes (3,4).Mesmo que tais dados tivessem sido publicados em jornais de abrangência internacional, em todos os lugares do mundo, milhões de mulheres foram declaradas anêmicas e receberam prescrições de ferro, mesmo que os testes específios para descobrir carência de ferro e anemias não tenham sido solicitados.
A incapacidade de interpretar os resultados de um teste tão difundido sobre a taxa de hemoglobina nas mulheres grávidas é um fenômeno perturbador porque é quase universal. Contaram-me a história de uma japonesa, que passou a primeira metade de sua gravidez em Londres, antes de retornar a Tóquio. Uma de suas amigas européias, mãe de quatro filhos, havia lhe advertido muito tempo antes, que no fim da gravidez lhe indicariam que ela estaria anêmica e lhe dariam ferro. O fim da história, que se passou do outro lado do mundo, é fácil de advinhar. O fenômeno não repercutiu somente de um ponto de vista geográfico. Ele se difunde em qualquer meio médico considerado.
Uma equipe renomada de epidemiologistas especializados no período que cerca o nascimento publicou, num jornal médico de prestígio, uma pesquisa sobre essa fase do parto que vai do nascimento do bebê à liberação da placenta. A fim de limitar seu estudo à gravidez de baixo risco, os pesquisadores eliminaram todas as mulheres das quais as taxas de hemoglobina eram inferiores a 10 (5). Finalmente a taxa média na população estudada era 11.1. na oportunidade, me foi solicitado remaracar os pontos fracos desse estudo (6).Tal fenômeno, de abrangência mundial, é preocupante para aqueles que compreenderam que um dos primeiros papéis dos profissionais de saúde deveria ser proteger o estado emocional da mulher grávida. Mais precisamente, deveria ser evitar o efeito "nocebo" que pode ocorrer nas consultas pré-natais. Haverá o efeito "nocebo" toda vez que profissionais de saúde fizerem mais mal do que bem, em relação ao sistema de crença, imaginação e, portanto, o estado emocional (7). Ora, dizer a uma futura mãe em perfeita saúde que ela precisa de uma prescrição de ferro para corrigir desequilíbrios em seu organismo é alterar seu estado emocional.
Tal fenômeno é também preocupante para aqueles que sabem que o ferro inibe a absorção de zinco, um mineral essencial para o crescimento do feto (um mineral não deveria ser prescrito isoladamente, mas sempre em associação com outros). Uma falta de interesse pela fisiologia da placenta é responsável pela situação atual. Os médicos, ao invés de ficarem obcecados pelo diagnóstico de anemia, deveriarn se aterem às situações conflituosas descobertas por uma taxa de hemoglobina que não consegue baixar. Poucos médicos visualizam a espetacular diluição da massa sanguínea das mulheres grávidas. Isso conduz a maioria dentre eles a não prestarem atenção aos estudos, cujos resultados afetariam suas imagens mentais.A falta de interesse pela fisiologia da placenta tem raízes fundas. Na França, o psicanalista Bernard This, depois de longo tempo, compreendeu as implicações do "esquecimento da placenta", quer dizer, do "mito da fusão" entre mãe e feto8. 0 mito dessa fusão é incompatível com a noção de conflito entre mãe e feto. 0 esquecimento da placenta é indissociável da socialização do nascimento, com suas crenças e seus ritos que interferern nos processos fisiológicos. Quando, no âmbito cultural, as mulheres não colocam no mundo seus bebês, mas "são paridas" por uma pessoa que se apressa em cortar o cordão, a placenta é esquecida.

Outros Exemplos
A placenta não só determina que o sangue da mãe seja mais diluído. Ela pode também reconhecer que o bebê em desenvolvimento tem necessidade de mais açúcar. Em outras palavras, cabe ao organismo materno modificar seu metabolismo de hidrato de carbono. Excepcionalmente, o conflito pode resultar numa verdadeira enfermidade.
A necessidade do bebê ultrapassa os limites do que permitiria a mãe de enfrentar a situação sem se desequilibrar. Então, pode se estabelecer um autêntico "diabete gestacional", com riscos de complicações tais como um excesso do líquido amniótico ou uma infecção da cavidade amniótica.Na imensa maioria de casos, a resposta do organismo materno tem a necessidade da placenta não ultrapassar o quadro das reações fisiológicas. O organismo materno controla a situação.
É necessário dar artificialmente à mãe um excesso de açúcar para descobrir um aumento incomum das taxas de glicose sanguínea (é o que os médicos chamam de hiperglicemia provocada). Como não se trata de doença, as únicas recomendações práticas são açúcares puros (bebidas açucaradas, bombons, etc.), de preferir os hidratos de carbono complexos (massas, pão, arroz, etc.) e também de atividade física regular.
Salientemos que não é necessário testes complicados para chegar a tais recomendações, que são úteis para todas as mulheres grávidas. Infelizmente, numerosos profissionais de saúde não hesitam em utilizar o termo "diabete gestacional" a propósito daquilo que é apenas um sinal de atividade placentária. Muitas das mulheres grávidas gravam apenas "diabete" e confundem seu estado com uma enfermidade crônica séria. Trata-se novamente de um exemplo frequente de "efeito nocebo" das consultas pré-natais. Nós podemos dizer que o "diabete gestacional" é um "diagnóstico em busca de uma doença".
O Professor Jarrett, de Londres, disse que é uma "não-entidade"9. Uma enorme pesquisa, no âmbito da população revelou que os recursos sistemáticos dos testes destinados a descobrir "diabetes gestacionais" não aliviam de nenhuma forma as estatísticas da enfermidade 10 e, portanto, não têm nenhuma razão de ser.Aqui, ainda há uma discordância entre os dados publicados na literatura médica e as práticas diárias.
Aqui ainda, essa discordância tem por origem profunda uma negligência, quase cultural, para as funções da placenta.É muito frequente que a placenta solicite simplesmente à mãe mais sangue. Então, o organismo materno aumenta sua pressão arterial. Os resultados de toda uma série de estudos são convergentes, e confirmam que um aumento isolado da pressão arterial na gravidez vai de encontro às boas estatísticas (11,12,13,14). Infelizmente, muitos médicos apresentam o simples aumento da pressão arterial durante a gravidez como uma notícia ruim. Eles consideram isso como uma enfermidade e de que é preciso tratá-la.
Uma revisão de 45 estudos publicados revelou que os únicos efeitos de um tratamento anti-hipertensivo durante a gravidez era inibir o crescimento do feto e aumentar o número de bebês de baixo peso (15). Os médicos que se interessam pela fisiologia da placenta estão em condições de prever o perigo de tais tratamentos. Ainda aqui, o único fato que nos faz pensar em prescrever tais medicamentos a mulheres grávidas confirma que é habitual confundir um sinal de atividade da placenta com a expressão de um conflito materno-¬fetal não controlado.
Muitos confundem a hipertensão isolada da gravidez, sem perturbações metabólicas associadas, com esta enfermidade que é a pré-eclâmpsia.
Pré-Eclâmpsia
Com a pré-eclâmpsia nós estamos indiscutivelmente no domínio dos conflitos mãe-feto não controlados, quer dizer, no domínio da patologia. Recordemos que a pré-eclâmpsia é uma enfermidade do fim da gravidez (normalmente do fim da primeira gravidez).
É uma enfermidade que põe em jogo a vida do bebê e da mãe. Uma das primeiras razões da existência das consultas pré-natais era tentar fazer o diagnóstico precoce deste quadro. De acordo com as mais frequentes definições de diagnótico da pré-eclâmpsia é necessário, pelo menos, a associação de uma hipertensão e a presença na urina de, no mínimo, 300 mg de proteínas por 24 horas.
Habitualmente, pode se descobrir outros distúrbios metabólicos, tais como uma taxa elevada de ácido úrico no sangue, uma taxa baixa de plaquetas sanguíneas e outros aspectos do "HELLP síndrome". Quando há convulsões, a enfermidade é chamada de "eclâmpsia". O termo "toxemia" - que inclui pré-eclâmpsia e eclâmpsia - não é mais usado hoje em dia.
A pré-eclâmpsia é uma enfermidade misteriosa que inspirou numerosas teorias. Tudo se esclarece quando nós a apresentamos como a expressão de um conflito entre a mãe e o feto e quando tomamos como ponto de partida uma comparação com aquilo que pode complicar a gravidez em outras espécies de mamíferos.
Veterinários usam a palavra “eclâmpsia” a propósito de uma enfermidade grave observada em diferentes espécies, tal como a espécie canina. A história típica é de uma pequena cadela trazendo um grande filhote. No fim da gravidez e no ínicio da lactação, a cadela torna-se agitada e nervosa. Ela apresenta dificuldade em caminhar e suas patas tornam-se rígidas.
Na ausência de tratamento, a morte pode acontecer depois de uma fase de convulsões. Para os veterinarios, não há nenhuma dúvida de que se trata das consequências de um conflito entre a mãe e os bebês.
O organismo de certas cadelas não pode atender à grande solicitação de substâncias nutritivas, particularmente do cálcio. Essa interpretação é confirmada pelo efeito espetacular de uma injeção intravenosa de cálcio. Convém ressaltar que, dentre os cachorros, a prioridade no fim da gravidez e no inicio do aleitamemento é alimentar os ossos, que são bem mais maduros no nascimento que entre os humanos. Não é surpreendente que, nessa espécie, o que nós chamamos de eclâmpsia é acima de tudo a consequência de uma falta de cálcio no sangue. É um "tétano puerperal".
Entre os humanos, a prioridade não a nutrir os ossos do feto. A prioridade é bem maior: nutrir o cérebro em desenvolvimento. O crescimento espetacular do cérebro durante a segunda metade da vida fetal é uma característica humana.
Não esqueçamos que, no nascimento, o cérebro humano já alcançou um quarto do seu tamanho adulto, enquanto que o conjunto do corpo alcançou apenas um vigésimo. Nós podemos concluir que, na nossa espécie, há um conflito entre as necessidades fetais e o que a mãe pode fazer sem desequilibrar seu organismo, é preciso levar em consideração as necessidades do cérebro em desenvolvimento.
Hoje, as necessidades específicas do cérebro em desenvolvimento são bem compreendidas. 0 cérebro é, em grande parte, composto por gordura. Isso significa que as necessidades nutricionais devam, a priori, se exprimir sobretudo em termos de ácidos graxos. Nós podemos introduzir apenas alguns detalhes compreensíveis para aqueles que têm um bom conhecimento da bioquímica dos lipídios. Digamos simplesmente que o cérebro em desenvolvimento está ávido de ácidos grassos, polissaturados de longa cadeia das famílias ômega 6 e ômega 3.
Mais precisamente, pelo menos 50% das molécuilas de ácidos graxos que se inserem no cérebro são representadas por uma só molécula, que habitualmente nós chamamos para simplificar de DHA (eu escrevi um livro (16) para aqueles que, sem o conhecimento da bioquímica, têm desejo de se familiarizar com algumas palavras chaves). DHA é um ácido graxo com cadeia muito longa (22 carbonos), polissaturados (6 duplas ligações), pertencentes à família do ômega 3. Podemos presumir então que, entre os humanos, quando a mãe não pode atender às necessidades crescentes de DHA, uma situação típica de conflito é criada.
Para que as necessidades nutricionais do cérebro em desenvolvimento sejam satisfeitas, o preço a pagar é um desequilíbrio no organismo materno. Sublinhemos imediatamente que o DHA (e os outros ácidos graxos ômega 3 com cadeia longa) são abundantes e aparecem na cadeia alimentar marinha.
Na cadeia alimentar terrestre, existe uma molécula relacionada que o organismo materno deve transformar.Nossa abordagem, inspirada por comparações entre espécies, conduz a se estabelecer uma hierarquia entre numerosos desequilíbrios biológicos que foram descritos durante o período das pré-eclâmpsias humanas.
A primeira face consiste em comparar o "estatuto" de ácidos graxos da mãe, no caso de uma gravidez normal e no caso de uma gravidez com pré-eclâmpsia. A atenção deve se dirigir, em particular, aos ácidos graxos polissaturados de cadeia longa da família ômega 3. É significativo que, qualquer coisa que aconteça, até mesmo no caso da pré-eclâmpsia, a taxa de DHA - a molécula essencial para o desenvolvimento do cérebro fetal - permanece relativamente estável 17. Essa estabilidade aparente confirma que, dentre os humanos, o desenvolvimento do cérebro é uma prioridade. Ela se faz ao preço de uma série de desequilíbrios que caracterizam a enfermidade da pré-eclâmpsia e que é fácil de se analisar com a interpretação bioquímica.
A pré-eclâmpsia representa o tipo de situação conflituosa não controlada pelas simples respostas fisiológicas. Nossa interpretação e confirmada pelo fato de que uma alimentação rica em ácidos grassos omega 3 reduz os riscos de pre-eclâmpsia. Analisando a composição dos ácidos grassos dos globulos vermelhos, e posslvel determinar a natureza dos lipldios consumidos durante os tres meses precedentes.
Uma pesquisa utilizando esse metodo claramente demonstrou o efeito protetor de uma alimentação rica em omega 3.18 Isso esta de acordo com as enormes variações geograficas da enfermidade.Toda visão teorica da pré-eclâmpsia deve ser confrontada com os aspectos mais misteriosos da doença.
Assim, é necessário se dar conta do fato que se trata normalmente de uma doença do fim da primeira gravidez. Ora, foi demonstrado que o metabolismo de ácidos graxos omega 3 depende do número de bebês que a mãe teve anteriormente 19,20. O conteúdo do sangue do cordão em DHA depende da ordem de nascimento. É como se o desenvolvimento cerebral fosse uma prioridade mais significativa e mais incondicional no caso do primeiro bebê. E fácil de interpretar o fato de que uma gravidez de gêmeos aumenta os riscos: o pedido de substâncias nutritivas é o dobro, e em particular o pedido de DHA.
A possível associação da "mola hidatiforme" e da pré-eclâmpsia reforça a teoria do conflito genético. No caso de uma mola, ha dois genômas paternos sem genômas maternos. A mola vai de encontro com as taxas elevadas de hormônios placentários HCG. Isso sugere que é desse hormônio que a placenta manipula a fisiologia materna para manter disponíveis as quantidades suficientes de DHA.
Os resultados de uma longa pesquisa canadense foram apresentados como inesperados e de dificil interpretação. Para muitos, eles contribuem para tornar a doença ainda mais misteriosa. É bem conhecido que as mulheres com eclâmpsia tenham riscos maiores de dar à luz bebês de baixo peso. Segundo essa pesquisa, elas têm também maiores riscos de darem à luz bebês grandes.
Os autores estudaram arquivos de aproximadamente 100.000 nascimentos que aconteceram em 35 hospitais de Alberta 21. Depois de considerarem múltiplos fatores, eles chegaram à conclusão de que os bebês de pesos elevados são duas vezes mais numerosos nas mulheres com pré-eclâmpsia do remanescente da população. Tais resultados são dificeis de interpretar no contexto teórico atual.
Partindo da noção do conflito mãe-feto, ao contráio, é fácil entender que, para um bebê de peso elevado, o pedido de substâncias nutritivas é grande e torna o conflito mais severo.Nossa forma de compreender a pré-eclâmpsia permite também esta ligações entre as diferentes formas conhecidas de reduzir os riscos.
Bem entendido, o consumo de peixes de água salgada pode ser considerado como um modo preventivo. Taxas de pré-eclâmpsia são relativamente baixas em países como Japão ou Noruega. Em 1991-1992, em um hospital londrino entrevistei, aleatoriamente, 500 mulheres grávidas e as encorajei a aumentarem seu consumo de peixes do mar. A comparação foi feita com um grupo controle de 500 mulheres com quem eu não tive esses encontros 22. Não houve pré-eclâmpsia e nem eclâmpsia entre as mulheres que eu havia entrevistado, contra duas pré-eclâmpsias e uma eclâmpsia no outro
Eu sinalizo esse estudo sabendo que seria necessário grupos mais numerosos para chegarmos a conclusões definitivas.Colocando de lado o consumo de peixes do mar, os riscos parecem se reduzir com ingestões importantes de magnésio (os efeitos preventivos e curativos do sulfato de magnésio são bem conhecidos) 23, cálcio 24 e zinco. Porém, esses minerais são catalisadores que ajudam o organismo materno a fabricar o DHA se a ingestão alimentar e insuficiente. Riscos são também reduzidos com ingestões suficientes de substâncias anti- oxidantes tais como as vitaminas C e E, os carotenos (que dão cores nos legumes e frutas) e o selenio 27. Porém, as moleculas de ácidos graxos têm uma longa cadeia o DHA, são frageis e podem ser facilmente destruídas através de processosoxidativos.
Nosso modo de entender a pré-eclâmpsia permite também estabelecer ligações entre certos fatores que aumentam os riscos. Os riscos são aumentados no consumo de ácidos graxos "trans" 28, moleculas abundantes nos óleos refinados, nas margarinas convencionais e, normalmente, nos bolos, biscoitos, frituras, "fast foods", etc.
Os riscos são também aumentados no consumo de açúcar e de álcool. Eles também aumentam em situações onde ansiedade e depressão 29 são predominantes. Porém, os ácidos grassos "trans", açúcar puro, álcool e hormônios como o cortisol, são agentes que bloqueiam o metabolismo dos ácidos grassos que tendem a prejudicar a sintese de moleculas tais como a DHA.Os Conflitos Feto-Maternais Não Controlados: um Conceito Necessário.
Essa visão teórica nos conduziu a apresentar a pré-eclâmpsia como "a enfermidade humana primária" 30, como o preço que tem de se pagar por terem desenvolvido o enorme cerebro que caracteriza nossa espécie. Essa enfermidade seria melhor compreendida se chegassemos a nos libertar das fronteiras incômodas entre os diferentes aspectos do conflito feto-maternal não controlados que são: pré-eclâmpsia, sindrome HELLP, autêntica diabétes gestacional e falta de diluição da massa sanguinea, revelados por taxas de hemoglobina que permanecem elevadas.
Assim, a diabete gestacional é acompanhada por uma perturbação do metabolismo de ácidos graxos de cadeias longas e uma taxa de hemoglobina elevada é um fator de risco para a pré-eclâmpsia, etc.Vários grupos de fatores podem precipitar em direrção ao conflito não controlado. Pode estar aí a origem do defeito da implantação da placenta. Isso é bem aceito no que concerne a gênese das pré-eclâmpsias 31.0 fato de urn antecedente de aborto32, um antecedente de transfusão sanguinea33 ou uma longa vida sexual antes da concepção34, reduzirern os riscos de pré¬eclâmpsia confirma a importancia provavel que os fatores imunológicos têm nessa fase. O conflito pode ser também favorecido por um pedido muito grande de substâncias nutritivas (os gêmeos, os bebês grandes, etc.): as teorias atuais, que tomam como ponto de partida a insuficiência placentaria, não podern explicar a associação bebê grande - pré-eclâmpsia.
O conflito também pode ser desencadeado devido ao fato de a mãe não dispor de uma quantidade suficiente de substâncias nutritivas, decorrente de seu estado emocional ou de sua alimentação.Parece cada vez mais provável que o Homo Sapiens foi originalmente umm primata adaptado à vida nos estuários ou nas costas, lá onde se dispõe, sem restrições, de alimentos favoráveis ao desenvolvimento de um cérebro volumoso.
A expressão "conflitos feto-maternais" oferece uma perspectiva para estudar a natureza humana.
Resumo
Os diferentes aspectos da "cientificação do amor" salientam a importância dos primeiros contatos entre a mãe e o recém-nascido. Uma alusão às razões de ser e à realidade dos conflitos mãe-feto dá um significado novo a esse período crítica que segue o nascimento.

Referências:
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Extraído de: Odent, Michel, A CIENTIFICAÇÃO DO AMOR “

10 Agosto 2009

E por falar nisto...

Digam lá como foram (ou estão a ser) a(s) vossa(s) experiência(s) de amamentação? Que apoio gostariam de ter e porque motivo acham que não o encontram? - se quiserem, a quem quiser, eu disponibilizo-me como mãe, doula e conselheira de aleitamento materno! :-)

Como sabem eu tenho 3 filhos, portanto 3 experiências de amamentação TODAS diferentes.
Todas elas me permitiram fazer uma aprendizagem diferente mas ricas, em todos os aspectos.

Com o mais velho, que hoje tem 7 anos, dei de mamar durante o tempo da licença (na altura só 120 dias) e mesmo assim sempre suplementado e cheia de dificuldades - foi um período difícil, para mim e para o bebé :-(.

Com o segundo, hoje prestes a fazer 5 anos, queria fazer melhor, sabia que conseguia fazer melhor por mim e por ele. Amamentei durante 9 meses, os últimos 5 suplementados. Sim, foi melhor mas, sinceramente não me satisfez.

Com o terceiro, hoje prestes a fazer 3 anos, munida de mais e melhor informação, apoio e "imunidade" contra os palpites e opiniões dos outros amamentei até aos 14 meses (os primeiros 6 em exclusivo) e foi o meu filho que me desmamou, deixando gradualmente de pedir mama.

Confesso que foi preciso determinação, confiança, apoio e conhecimento. O mundo é muito forte contra uma só pessoa, num período frágil, assoberbado e por vezes, complicado...

E vocês?

Ainda a linha da fotografia mas, mais institucional

O Ser Mãe também lança um passatempo comemorativo da SMAM - Semana Mundial do Aleitamento Materno.
Com o objectivo de mobilizar as pessoas para a necessidade crescente de se informarem, tanto sobre as vantagens do Aleitamento Materno como das desvantagens do Aleitamento Artificial, este concurso é muito mais institucional na medida em que no júri terá algumas das principais associações activas na divulgação e promoção destas temáticas.

A Associação Doulas de Portugal, a HumPar, a Maternar e o projecto Amamentar estarão representadas para concluirem a avaliação e a escolha!

Informem-se e participem!

"Sou melhor que as modelos da Pirelli"

A P. e a B. do blog Mamar ao Peito tiveram a iniciativa de lançar um passatempo, para o qual as férias não podiam ser o melhor cenário! Leiam:

"Na comemoração do Dia Mundial do Aleitamento Materno (1 Agosto) e do Dia Mundial da Fotografia (19 Agosto), o blogue Mamar ao Peito, juntou-se à HUG e organizámos um passatempo que promete ser bastante divertido...Como já devem ter associado, vamos fazer um passatempo que envolve Amamentação e Fotografia... Mas não queremos fotos tradicionais... Queremos acima de tudo, fotografias muito bem-dispostas e cheias de originalidade!!!

Objectivo!?
Conseguir a foto mais orignal a amamentar... Pode ser pela posição utilizada, como pelo local ou os dois em simulâneo... Porque quem mandam são os bebés, e muitas de nós já se deparou a amamentar em locais ou posições fora do normal... Agora só vos pedimos para captarem esses momentos!

Mas o nosso objectivo não se fica por aqui... As mamãs com as fotos vencedoras, irão ganhar.....

Uma sessão Fotográfica (de grupo) a amamentar!Dessa essão fotográfica, sairão as 12 fotos que irão constituir o Calendário que o Mamar ao Peito vai lançar em Parceria com a HUG...
É verdade... Vamos mostrar, de forma artistica, orginal e muito divertida, como se pode fazer um calendário de mulheres sem que este tenha de ir parar a uma oficina de automóveis... lolVamos mostrar que amamentar é um acto natural, e porque por isso pode ser em qualquer lugar e de qualquer forma!!!
A participação neste passatempo, pressupõem a aceitação das regras estipuladas.Leiam e participem!
Como participar!?Ao longo deste mês, aproveitem para tirar umas fotos originais!!!" e consultem o blog delas para recolha de toda a informação necessária.

É uma ideia brilhante não acham?! O passo seguinte era colocar o calendário em todos os Centros de Saúde do país e... quiçá até nos consultórios pediátricos privados (eh,eh,eh)!! P. e B. o que vos parece a ideia?!?!

Olá de novo...

Pimeiro foi a organização do trabalho para a ida, depois foram as férias e depois a reorganização do trabalho na volta... forçaram à ausência mais prolongada do que é desejável mas, ao mesmo tempo também soube bem!! Vocês sabem do que estou a falar (;-)).

Agora, apesar de estarmos em Agosto e da grande maioria das pessoas ir de férias , é a minha altura preferida para trabalhar; primeiro o trânsito e os trasportes são muito mais sossegados, vazios e fluídos, depois parece que efectivamente o ar condicionado do trabalho funciona melhor :-P e, finalmente, o trabalho é menor - não é que eu não goste de trabalhar (nem sempre, nem nunca) mas, o abrandamento dá-nos tempo para mais e melhores coisas!!

Enfim, regressem também à leitura e aos comentários que são sempre bem-vindos.
Os novos posts começam... já a seguir!

03 Julho 2009

Chamada a todos os recém-pais

"Massagem para Bebés - NOVO CURSO EM SINTRA COMEÇA SÁBADO DIA 11 DE JULHO

O curso é composto por 4 encontros, habitualmente semanais, em horário pré acordado, pratica-se a massagem, debate-se a sua importância, quais os benefícios que daí advém para os pais e para o bebé, debatem-se vários temas relacionados com o desenvolvimento da criança, o sono, o choro, etc. É um momento em que se esclarecem dúvidas no sentido de facilitar o vínculo entre ambos e se ensina a técnica da massagem ao longo de todo o corpo do bebé.

Tudo isto no sentido de potenciar de uma forma saudável através do toque a relação pais – bebé.
O curso é composto por 4 aulas, cuja duração é de 1h / 1h30m

Local e preços: DSO - Sintra, 50 euros (mínimo 2 bebés máximo 4)"

Quem fez o curso e Educação e Preparação para o Nascimento da Barrigas&Bebés (nos espaços HUG ou Homeólis ou ao domicílio), pode usufruir aqui da sua aula de oferta, já no próximo dia 11/7. Queiram por favor inscrever-se através do nosso e-mail (contacto@barrigasebebes.com).
Apareçam!

O controlo da composição do leite!

Do Dr. Carlos González em, My Child Won’t Eat (ou de acordo com a versão espanhola Mi Niño no me Come):

"(...) Não só a quantidade de leite produzida, como também sua composição, depende da forma como o bebé mama. O bebé controla o peito para obter o tipo de leite que necessita em cada momento.

A quantidade de gordura no leite aumenta ao longo da mamada. Não é um aumento pequeno; está comprovado que a concentração de gordura ao final da mamada pode ser cinco vezes maior que no princípio. Às vezes, fala-se em "leite do princípio" e "leite do final"; mas não é que existam dois tipos de leite, "plim", acabou o leite desnatado e agora sai leite com gordura. A quantidade de gordura (e, portanto, de calorias) vai aumentando gradualmente, como se mostra no esquema da figura 1. No princípio, o bebé mama poucas calorias em grande quantidade de leite; ao final, muitas calorias em pouco volume. O tempo da mamada depende da velocidade em que o bebé mama; pode ser que mame tudo que quer mamar em dois ou três minutos, ou pode precisar de mais de vinte.

Assim, quanto mais leite o bebé ingerir em uma determinada mamada, maior será a quantidade de gordura ingerida (é possível que haja um limite máximo, claro, mas esse limite nunca se alcança, porque como já dissemos, um bebé nunca esvazia o peito completamente). Quando solta o peito, essas últimas gotas que ainda caem têm uma concentração de gordura muito alta. Quando voltar a mamar, após algumas horas, as primeiras gotas de leite terão muita pouca gordura. Aquele último leite concentrado foi sendo diluído durante esse intervalo com o novo leite, mais aguado, que foi produzido nesse período. Acredita-se que também aqui exista um autocontrole, e que, se o bebé deixa dentro do peito muita quantidade de gordura, esta inibe a produção de mais lipídios e o leite produzido em seguida é mais aguado que o habitual. Como se o bebé dissesse: "mãe, não consigo terminar de comer esse macarrão, está muito gorduroso." e ela responde, "não se preocupe, na próxima vez colocarei menos óleo".

Suponhamos que o bebé pega e solta o peito, mas após cinco minutos, volte a mamar. Sairá leite com pouca gordura? Claro que não, não houve tempo para que o leite recém produzido tenha diluído o que ficou no peito no fim da mamada anterior. Sairá, desde o princípio, o mesmo leite "do final" que estava saindo há alguns instantes. A quantidade de lipídos do começo da mamada depende do nível que se alcançou na mamada anterior e do tempo decorrido desde então.

A todo momento, estamos falando de um só peito. Mas, claro, tem também o segundo. Tomar 100 ml de um só peito não é o mesmo que tomar 50 ml de cada um; no segundo caso, o bebé está tomando muito menos gordura e, portanto, muito menos calorias. E também não é o mesmo que tomar 70 e 30, 85 e 15...

E se não é o mesmo, o que é o melhor? Quando tirar o bebé do primeiro peito para colocá-lo no segundo? Não fazemos ideia. Não sabemos qual a quantidade de lipídios que um bebé necessita (os livros de nutrição podem dizer coisas como: “os lactentes entre seis e nove meses necessitam entre x e y miligramas/quilo/dia de lipídos”, mas não pode nos dizer quantos lipídos Laura de Souza, de 8 meses, necessita tomar essa tarde às 16h28min), não sabemos qual a quantidade de lipídos tem o leite no princípio da mamada, não sabemos quantos ml de leite já tomou, não sabemos em qual velocidade está aumentando a quantidade de gordura no leite nesta mamada determinada, não sabemos qual a quantidade de gordura terá o leite do segundo peito, não sabemos qual a quantidade de leite do segundo peito que caberá no estômago dele.

E como há gente capaz de dizer coisas como: “em dez minutos tire o bebé do primeiro peito para dar o segundo?” Vai saber! A ignorância dá asas à audácia.

Cada bebé dispõe, pois, de três mecanismos para modificar a composição do leite que toma a cada momento: pode decidir o quanto de leite vai tomar, quanto tempo demorará para voltar a mamar, e se mamará um peito ou dois. Foi comprovado cientificamente, analisando o leite em cada caso, que os três factores influenciam na sua composição. A quantidade de leite ingerida deveria depender do tempo em que o bebé está no peito; mas a relação é tão variável (uns mamam depressa e outros devagar) que estatisticamente não há relação: não podemos dizer “se está mamando há cinco minutos, ingeriu 50 ml, se está há dez minutos, mamou 130 ml”. A concentração de gordura não depende da quantidade de tempo que o bebé mama e sim da quantidade de leite que o bebé mama no período. Veja bem, para um bebé determinado, em uma mamada determinada, é óbvio que se lhe tiramos do peito antes, terá tomado menos leite. E, se por uma lado é fácil medir quanto tempo mama, por outro é muito difícil saber quanto de leite tomou. Assim, para fins puramente didácticos poderíamos dizer que os três mecanismos de controle são:

- a duração da mamada;

- a frequência das mamadas;

- mamar um peito ou dois.

Cada bebé, em cada momento do dia ou da noite, modifica à vontade esses três factores para conseguir o alimento que necessita.

Quando se tira o bebé do primeiro peito antes de que ele acabe (talvez porque alguém com boa vontade advertiu: “principalmente, dê o segundo peito antes que ele durma”), em vez do último leite do primeiro peito, tomará o primeiro leite do segundo peito. Isso significa, como indica a figura 2, que necessitará tomar mais quantidade para obter as mesmas calorias. Se a diferença for pequena, provavelmente não acontecerá nada. Toma um pouco mais de leite e problema resolvido. Mas se mudam o bebé de peito quando ainda teria que mamar muito do primeiro (por exemplo, quando tiramos do peito com dez minutos um bebé necessita de quinze ou vinte minutos) a quantidade de leite que teria de tomar é tão grande que, simplesmente, não cabe em seu estômago. Nos adultos, o estômago tem uma capacidade muito superior a que normalmente se usa; poderíamos tomar um litro de água depois de comer e quase não sentiríamos nenhum incómodo. Mas o estômago de um bebé é muito pequeno, quase não tem capacidade de reserva. O bebé se vê obrigado a soltar o segundo peito porque não aguenta mais nada, mas por outro lado, ainda está com fome; a situação é muito similar à que ocorre quando a pega está errada.

Em 1988, Michael Woolridge e Chloe Fisher publicaram na prestigiada revista médica Lancet cinco casos de bebés que apresentavam de forma continuada choro frequente, cólicas, diarreia e outros incómodos. Bastou dizer às mães que não tirassem o bebé do primeiro peito, mas que esperassem que ele soltasse sozinho quando acabasse, para que os problemas desaparecessem. Pouco depois, Woolridge e outros pesquisadores tentaram reproduzir experimentalmente a situação em um grupo de bebés saudáveis que não tinham problemas com a amamentação. Disseram à metade das mães que tirassem o bebé do primeiro peito após dez minutos, e à outra metade que esperassem que o bebé soltasse o peito espontaneamente. Pensavam que os bebés do primeiro grupo tomariam líquido demais, lactose demais e pouca gordura e, portanto, teriam cólicas, vómitos e gases. Mas os próprios bebés modificavam os outros dois factores, o intervalo entre as mamadas e a decisão de mamar um peito ou os dois, de forma que ao longo do dia conseguiam mamar a mesma quantidade de gordura que o outro grupo e não tinham nenhum problema.

Como o bebé tem três ferramentas (lembre: frequência das mamadas, duração das mamadas, mamar um peito ou dois) para controlar a composição do leite, é possível que a maioria deles dê um jeito para controlar com duas delas, mesmo que tenhamos fixado a terceira arbitrariamente. Talvez aqueles cinco bebés que tiveram problemas para limitar o tempo de sucção sejam excepções, sejam bebés (ou mães) com menor capacidade fisiológica de adaptação. Do mesmo modo, todos nós caminhamos, mas na hora de correr uns irão mais depressa e se cansarão antes que os outros.

A capacidade de adaptação dos seres vivos pode ser muito grande, mas não podemos esperar milagres. Ao longo do século passado, muitos médicos se empenharam em controlar simultaneamente os três factores: o bebé tem que mamar exactamente dez minutos de cada lado a cada quatro horas. A exactidão chegava a ser obsessiva; ainda hoje algumas mães perguntam se as quatro horas começam a contar desde quando o bebé começa a mamar ou desde que acaba (porque, claro, com dez minutos por peito e um entre eles para arrotar, seriam quatro horas e vinte e um minutos). Muitos livros e muitos especialistas nem sequer diziam “a cada quatro horas”, mas estipulavam as horas concretas: às oito, ao meio dia, às quatro, às oito e à meia noite. Nem pense em dar às nove, à uma e às cinco! Entre meia-noite e oito da manhã havia um descanso nocturno de oito horas (passar metade da noite acordada vendo seu filho chorar e não podendo dar de mamar era chamado de descanso nocturno). O intervalo de quatro horas era a recomendação da escola alemã. Também havia uma recomendação da escola francesa de dar de mamar a cada três horas, com descanso nocturno de seis horas. Cabe perguntar se dar de mamar cinco ou sete vezes durante o dia influía no carácter nacional desses países. Também havia partidários de dar em cada mamada um peito ou ambos (esses últimos mais numerosos), o que no total perfaziam quatro teorias: um peito a cada três horas, dois a cada três, um a cada quatro horas e dois a cada quatro horas. Mas, habitualmente, cada médico seguia uma teoria somente e a defendia com entusiasmo.

Assim, os bebés se encontravam totalmente desarmados: não poderiam decidir sobre a frequência, nem sobre a duração, nem o número de peitos que deveriam mamar. E não podiam controlar nem a quantidade nem a composição do leite, tinham que se conformar com o que o acaso lhe determinava. Na maioria dos casos, a quantidade era insuficiente e a composição, inadequada; os bebés choravam, queixavam-se, vomitavam, não aumentavam de peso... Há uns anos, na Espanha, ainda amamentar aos três meses era raro, e fazê-lo sem ajuda de complemento era quase heróico.

Claro, também há casos em que, pela mais rocambolesca das coincidências, o bebé obtém a quantidade de leite de que necessita e com uma composição adequada mamando dez minutos a cada quatro horas. Essas raras excepções só vêm confirmar a fé dos médicos nos horários rígidos: “Isso de amamentar em livre demanda é uma bobagem. Eu conheci uma mãe que seguia ao pé da letra a regra de dez minutos a cada quatro horas, e tudo ia maravilhosamente bem; amamentou até os nove meses e o bebé dormia como um anjo e engordava perfeitamente. O que acontece é que as mães de hoje não querem trabalho, preferem a comodidade dos biberões. (...)”

Woolridge MW, Fisher C. Colic, “overfeeding” and symptoms of lactose malabsorptiom in the breast-fed baby: a possible artifact of feed management? Lancet. 1988; 2:382-4.
Woolridge MW. Baby-controlled breastfeeding: biocultural implications. En Stuart-Macadam P, Dettwyler KA, eds.: Breastfeeding. Biocultural perspectives. New York: Aldine de Gruyter, 1995.
Woolridge MW, Ingram LC, Baum LD. Do changes in pattern of breast usage alter the baby’s nutrient intake? Lancet 1990;336:395-397
Tradução de Frnanda Mainier
Revisão de Luciana reitas

Nota das tradutoras:
Resumindo, os bebés têm 3 mecanismos para controlo das mamadas e da ingestão de leite:

1- a duração da mamada - portanto é um erro determinar que o tempo que o bebé deve mamar, nem 5 nem 10, nem 15, nem 50 minutos. Cada bebé controlará em cada mamada quanto tempo deve mamar. Se tiramos o bebé antes do tempo que ele vai determinar naquela mamada, é óbvio que terá mamado menos do que necessita.

2- a frequência das mamadas - portanto, é igualmente errado colocar intervalos fixos para mamadas: nem de 3 em 3 horas, nem de 4 em 4 horas, nem de 1 em 1 hora. O bebé é que determina se quer mamar 1 hora depois ou 3 horas depois. É o que chamamos livre demanda.

3- se quer mamar um peito ou dois - só devemos trocar o bebé de peito numa mesma mamada, se ele largar espontaneamente o primeiro e demonstrar que ainda quer mamar, e que o primeiro se esvaziou (se no primeiro ainda há leite, deve-se oferecer o primeiro novamente - se for na mesma mamada). Assim, a regra é um peito por mamada, a não ser que ele ainda queira mais. E sempre alternando os peitos a cada mamada.

Se colocarmos limites nesses três factores, ou seja, determinar quantos minutos devem durar as mamadas, determinar o intervalo entre elas e oferecer sistematicamente sempre os dois peitos numa mesma mamada estaremos contribuindo e muito para que o bebé não ingira a quantidade de leite adequada ao seu desenvolvimento.

Esqueçam o relógio!

01 Julho 2009

"Eat, Pray, Love"

Ontem terminei (finalmente) o "Comer, Orar e Amar"* da Elizabeth Gilbert e... confesso que no fim do livro fiquei à espera de mais…ou seja, esperava que a história continuasse, avançasse com mais pormenores acerca de como determinadas situações no livro ficaram resolvidas (ou não)…
Não sei se alguém que já o tenha lido ficou (ou não) com esta mesma sensação e se sim pf digam…!?!

Independentemente disso adorei o livro, fiquei com a sensação de que contém alguns (muitos) ensinamentos que podemos tentar transportar para a nossa vida e, só tenho pena de não conseguir (não digo não poder porque… you never know… e o não conseguir por ser um espaço temporário, porque pode ainda não ter chegado a altura exacta… ) fazer o mesmo, tirar um tempo, fazer uma retirada sabática, aprender de experiencias vividas, novas coisas, novas culturas, sabores, imagens, gentes…

Conheço quem o tenha feito, ou esteja a fazê-lo e tenho a certeza (pelos relatos que leio ou pelas coisas que me contam) que não se arrependem e de facto não há nada como a experiência do viver e sentir para crescer!


Este post da Cat não podia vir mais a propósito! Eu já vos disse que não acredito em coincidências ?!?!? Algo me está a querer transmitir alguma mensagem… necessidade de mudança e transformação…huummm!!!

*trad. de Eat, Pray, Love